Aula 2.2 · 16 minutos · intermediário
Contrato social: ideias e divergências
Objetivo: Compreender o argumento do contrato social em Rousseau, como ele difere de outros autores e os limites que lhe foram apontados.
01 · Pergunta da vida real
Pergunta da vida real
Você nunca assinou nenhum contrato com o Estado. Mesmo assim, ele vale para você?
02 · Resposta simples
Resposta simples
O contrato social é uma maneira de pensar a política: imaginar que o poder legítimo nasce de um acordo entre pessoas livres e iguais, e não da força ou da tradição. Não é um documento que alguém tenha assinado, e sim um argumento sobre o que tornaria o poder aceitável. Os autores chegam a conclusões diferentes. Em Hobbes (1651), as pessoas entregam quase todo o poder a um soberano em troca de segurança. Em Locke (1689), entregam só o necessário, e o governo que viola a vida, a liberdade e os bens pode ser substituído. Jean-Jacques Rousseau, em O Contrato Social (1762), propõe outra coisa: cada um se une a todos e obedece apenas às leis que o próprio povo, reunido, aprovou. A lei deve expressar a vontade geral, voltada para o bem comum, que não é a soma dos interesses particulares (a que ele chama vontade de todos). Por isso Rousseau desconfiava da representação: para ele, a soberania não pode ser delegada. As críticas são antigas. David Hume (1748) observou que quase todos os governos começaram pela conquista ou pela usurpação, não por acordo. Benjamin Constant, no início do século 19, alertou que uma soberania do povo sem limites pode esmagar a liberdade individual. Autoras e autores do século 20, como Carole Pateman e Charles Mills, mostraram que os contratos clássicos deixavam mulheres e povos não europeus fora do acordo. A Constituição de 1988 combina representação com participação direta (art. 14) e põe limites até à maioria.
03 · Conceitos essenciais
Conceitos essenciais
- Contrato social
- Argumento segundo o qual o poder legítimo nasce do acordo entre pessoas livres e iguais. É uma hipótese teórica, não um fato histórico.
- Estado de natureza
- Situação imaginada, sem governo, que cada autor descreve de um jeito para mostrar por que o governo é necessário.
- Consentimento
- Aceitar livremente uma autoridade ou regra. É o contrário de imposição.
- Vontade geral
- Para Rousseau, a vontade do povo voltada ao bem comum. Diferente da vontade de todos, que é a soma dos interesses particulares.
- Soberania popular
- A ideia de que o poder pertence ao povo. Está no art. 1º, parágrafo único, da Constituição.
04 · Esquema
Esquema
Três versões do contrato
- Hobbes (1651): por medo da insegurança, as pessoas entregam o poder a um soberano forte. Prioridade: paz e segurança.
- Locke (1689): as pessoas confiam ao governo a proteção de vida, liberdade e bens. Se ele trai essa confiança, pode ser substituído.
- Rousseau (1762): o povo inteiro é o soberano e só deve obedecer às leis que ele mesmo fez. Desconfia de representantes.
- Constituição de 1988: o poder emana do povo, exercido por representantes eleitos ou diretamente, com direitos que nenhuma maioria pode abolir.
05 · Fonte primária
Fonte primária
Jean-Jacques Rousseau, Du contrat social (1762), Livro I, capítulo 1 (texto original em francês, domínio público) A frase que abre o capítulo, em tradução livre: “O homem nasceu livre, e em toda parte está a ferros.” Rousseau não pergunta como isso aconteceu, mas o que tornaria essa situação legítima.fr.wikisource.org · ler na fonte06 · Leituras complementares
Leituras complementares
- O Contrato Social (Du contrat social) · Wikisource · clássico · domínio público
- Do Contrato Social — Jean-Jacques Rousseau · MEC — Domínio Público · clássico · pdf na página do acervo
- Leviatã (Leviathan) · Projeto Gutenberg · clássico · domínio público
- Segundo Tratado sobre o Governo · Projeto Gutenberg · clássico · domínio público
07 · Exercício
Exercício
Não há nota nem registro das respostas: elas ficam só na tela, para você conferir o que entendeu.
08 · Na prática
Na prática
Escreva três frases que mostrem a diferença entre consentimento e imposição. Exemplo de formato: uma situação em que você aceitou uma regra porque participou da decisão; uma em que a regra foi imposta; e o que mudou na sua disposição de cumpri-la.
Ver um exemplo real no siteVer os eleitos da minha cidadeNa democracia brasileira, o momento mais visível do consentimento é a eleição. Veja na página da sua cidade quem foi eleito e com quantos votos, segundo o TSE.09 · Limites e contrapontos
Limites e contrapontos
- O resumo de cada autor é simplificado; as obras têm nuances e são lidas de modos diferentes por especialistas.
- Rousseau pensava em comunidades pequenas, como a Genebra do século 18; ele mesmo duvidava de que o modelo servisse para países grandes.
- Consentir com as regras do jogo democrático não significa concordar com cada lei: a discordância e a mudança das leis pelas vias previstas fazem parte do acordo.
10 · Próximo passo